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A superbactéria ideológica

Achei que tivessem aprendido pelo menos essa lição – mais um palpite errado. 

Eles não aprendem e eu não aprendo que eles não aprendem

Quando a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia de Covid-19 e deslocou a atenção do mundo para a emergência sanitária, dei o seguinte palpite: agora Jair Bolsonaro se reelege com recorde de popularidade.

Porque a desgraça nunca vem sozinha: um vírus que pode matar muita gente e um outro vírus que pode enganar muita gente.

Até então, bêbado de intenções, o desgoverno tropeçava nas próprias pernas. Faltava energia para o choque liberal prometido por Paulo Guedes. 

O radicalismo era mais discursivo que efetivo. Não porque não quisessem a ruptura, queriam, mas porque não souberam como romper.

Bolsonaro e respectivo séquito descobriram que o Centrão dá, mas tira; empresta, mas cobra. 

Descobriram o que sempre souberam. O que foi Bolsonaro, durante toda a vida pública, senão uma nota de rodapé ao Centrão?

Com a pandemia, o ex-presidente, atual condenado e futuro anistiado tinha um inimigo externo e, reparem, não-ideológico, com quem brigar. 

Bastava agir como um político oportunista e um ser humano razoável. 

Quem criticaria um presidente que se mobilizou para proteger os brasileiros de um vírus?

Acontece que o presidente era Bolsonaro. Bolsonaro é um político oportunista e não é um ser humano razoável. 

Decidiu brigar com o coronavírus. Duvidar dele, da vacina, dos doentes, dos números, das recomendações, das máscaras, da falta de ar, dos mortos, das covas.

Deu no que deu. Achei que tivessem aprendido pelo menos esta lição – mais um palpite errado. Eles não aprendem e eu não aprendo que eles não aprendem.

Na semana passada, a Anvisa constatou irregularidades na produção dos detergentes Ypê. 

Determinou recolhimento de alguns lotes e suspensão da produção e comercialização dos produtos. 

Depois de alguma relutância, a empresa comunicou que aceitaria a paralisação temporária e aplicaria as medidas sanitárias.

Estamos falando de detergentes, bactérias, saúde pública, certo? Errado. 

Estamos falando de uma superbactéria resistente a detergentes, inseticidas, unguentos, feitiços ou antibióticos de qualquer tipo: bolsonarismo.

Consta que alguns membros da família que controla a Química Amparo, dona da marca Ypê, fizeram doações à campanha de Jair Bolsonaro em 2022. 

A empresa já tinha sido condenada por assédio político a funcionários. Como toda empresa, negou as acusações e se declarou apartidária.

De repente, políticos, influenciadores, celebridades, entusiastas e provavelmente meia dúzia de parentes meus invadiram as redes lavando louças com Ypê. 

Defendendo a honra da Ypê. Tomando banho com Ypê. Escovando os dentes com Ypê. Bebendo Ypê no café da manhã. Limpando o bigode com Ypê.

Não posso deixar de registrar que a esquerda intelectualmente abobada, que não perde chance de mostrar que é o oposto simétrico dos intelectualmente abobados bolsonaristas, entrou na disputa e passou a tratar o Ypê como detergente fascista.

Vou ao armário e constato que tenho detergentes de distintas colorações ideológicas. Limpol, da Bombril, que é de esquerda, e Ypê, da Química Amparo, que é de direita. 

Democrático, eu? Vendido ao Centrão, que atende pelo nome de Sueli, moça que faz a faxina em casa. 

Ela troca de marca como o Ciro Gomes de partido. Eu obedeço e compro.

Na dúvida, jogo fora os da Ypê. Até a próxima eleição, minto, inspeção.

Fonte: https://oantagonista.com.br/analise

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